Tempo:
4:11:30
Abastecimento:
- 4 géis SIS Isotonic Energy
- Bananas
- Powerade
Equipamento:
- Saucony Endorphin Shift
- Óculos Oakley
- Regata branca Decathlon
- Fones JBL Endurance JUMP
- Suporte de celular
- Shorts de plástico
- Meias de algodão
- Boné de algodão
- Cinta Garmin HRM-Dual
Treino
Minha preparação para a primeira maratona foi tudo, menos sistemática. Não havia um plano de treino estruturado, nem um treinador profissional me orientando.
Durante o período de base, eu corria apenas de 10 a 30 quilômetros por semana. Vendo um corredor profissional no YouTube, aprendi que rodar pelo menos 50 quilômetros por semana era fundamental para cruzar a linha de chegada de uma maratona. Então, duas semanas antes da prova, finalmente aumentei minha quilometragem para cerca de 50 km.
De vez em quando, eu incluía alguns treinos intervalados curtos, correndo mais rápido do que o meu pace de meta, na esperança de que esses esforços desorganizados fossem suficientes.
Nas últimas semanas, consegui fazer dois treinos de 30 km. O mais recente foi apenas duas semanas antes do dia da prova. Cravei 2 horas e 41 minutos, com um pace médio de 5:20/km. Aquele treino foi uma pequena vitória — aumentou minha confiança de que eu conseguiria fechar minha primeira maratona em menos de quatro horas (pace de 5:40/km).
Antes da Prova
Na semana anterior à prova, o foco foi reduzir o volume de treino, carregar carboidratos e viajar até o destino. Minha família e eu seguimos para o local da prova, a empolgação deles se misturando com a minha ansiedade. Meu irmão correria a maratona comigo, enquanto meu pai estava inscrito na meia maratona. Foram eles que me inspiraram a começar a correr. Essa prova era especial para nós — era a nossa aventura em conjunto.
Os Primeiros Quilômetros
Quando o tiro de largada soou, eu disparei para frente, com a adrenalina e a empolgação se sobrepondo a todo o planejamento cuidadoso que eu tinha feito. Como muitos maratonistas de primeira viagem, cometi o erro clássico: comecei rápido demais. Apesar do meu plano inicial, minhas pernas se moviam com facilidade em um pace de 5:15/km. A sensação era boa — boa demais, a ponto de eu ignorar a voz na minha cabeça pedindo para eu desacelerar. Eu me sentia invencível.
Depois dos primeiros quilômetros, notei uma garota mais ou menos da minha idade correndo ao lado de um homem mais velho. Uma dupla de pai e filha, imaginei. Eles se moviam com leveza e determinação, acompanhando meu pace de 5:15/km. Na primeira metade da prova, seguimos lado a lado, mantendo o pace estável. Minha respiração estava tranquila e minha frequência cardíaca estável, logo abaixo da minha zona de limiar de 165 bpm.
Só que, perto da metade da prova, a dupla me ultrapassou sem esforço nenhum, o que acendeu uma frustração em mim. Eu queria acompanhar o ritmo deles, mas percebi rapidamente que não conseguiria. Me conformei com a ideia de que eles deviam estar mais bem preparados e que eu não precisava provar nada a eles.
Desacelerei para um pace de 5:30/km nos 5 km seguintes. Minhas pernas começaram a pesar, minhas reservas de energia se esgotavam rapidamente e a fadiga se instalou. Ficou claro que os géis que eu vinha consumindo não eram suficientes.
Tive que desacelerar ainda mais, para um pace de 6:00/km. Normalmente, esse é o meu "pace de ouro", que consigo manter indefinidamente. Mas não naquele dia. Esse pace, que costuma ser tão confortável, agora parecia impossível de sustentar.
Batendo na Parede
O quilômetro 31 foi a verdadeira virada. Foi a primeira subida significativa em um percurso que, até então, era praticamente plano. Para piorar, aquele era território desconhecido para mim — eu nunca tinha corrido mais de 30 km em treino. A luta mental e física começou de verdade. A música motivacional tocando nos meus fones não ajudou muito. Minha força evaporou. Aquela era a parede, a temida barreira que todo maratonista teme.
No quilômetro 34, fui obrigado a parar de correr e passei a caminhar. Minhas coxas travaram de dor, e minhas panturrilhas estavam a um passo de espasmos também. A exaustão tinha se instalado por completo. Cada passo era uma negociação com minhas pernas, um pedido para que continuassem se movendo. Estabeleci metas curtas e desesperadas: chegar até a próxima árvore, o próximo poste, antes de tentar correr de novo. No posto de apoio seguinte, devorei duas bananas e engoli isotônico — alimentos que eu não tinha consumido antes. Passar gelo nas coxas trouxe um alívio breve, mas a dor e o medo de novas cãibras voltaram logo em seguida.
Depois de dois intervalos curtos caminhando e de uma alimentação da qual eu precisava muito, consegui voltar a correr, mas minha meta de terminar em menos de quatro horas já tinha ido embora. Agora, o único pensamento na minha cabeça era completar a distância, o que já seria uma conquista.
Por um momento, pensei em desistir, mas eu estava no meio do nada, sem táxis ou transporte público por perto, e o caminho mais curto para sair dali era seguir em frente. Além disso, minha família estava me esperando na linha de chegada, e todos os meus pertences também estavam lá. Eu precisava chegar até lá de algum jeito, e caminhar levaria uma eternidade.
Surpreendentemente, esse pensamento — "você precisa chegar à linha de chegada porque tem gente te esperando e todos os seus pertences estão lá" — se tornou meu mantra nessa e em todas as provas seguintes. Ele me ajudou a aceitar que desistir não era uma opção e que correr, por mais devagar que fosse, sempre seria melhor do que caminhar.
Depois de mais alguns intervalos curtos caminhando e de uma alimentação da qual eu precisava muito, consegui voltar a correr.
Temporal
A cerca de 5 km da chegada, o céu se abriu e despencou um temporal, me encharcando até os ossos. Meu tênis fazia barulho de água a cada passo, minha roupa grudava na pele, e o mundo ao meu redor ficava embaçado sob as cortinas de chuva. Poças se formavam na estrada mais rápido do que a água conseguia escoar. Parecia uma pequena enchente.
Ainda assim, a chuva também trouxe algum alívio. Ela esfriou meu corpo e lavou o sal e o suor da minha pele. Comecei a pensar que talvez, só talvez, eu pudesse acelerar. Não para buscar um tempo, mas para escapar do frio. Eu estava chegando perto da cidade, e torcedores começaram a aparecer ao longo do percurso — a torcida animada deles me incentivou a correr ainda mais rápido.
Reta Final
A cada quilômetro, a distância que faltava até a chegada parecia cada vez mais insignificante. Senti um resquício de força voltando e comecei a acelerar. A sola dos meus pés doía, mas a dor era suportável. Esqueci a dor no resto do corpo: coxas, panturrilhas, costas, pescoço. O pensamento de terminar forte me empurrava para frente.
Quanto mais perto eu chegava da linha de chegada, mais rápido eu corria. Eu tinha me recuperado o suficiente nos últimos quilômetros para acelerar, e logo estava correndo no mesmo pace com que tinha começado. Parecia que eu tinha descansado demais mais cedo. Eu ultrapassava corredores exaustos para todos os lados.
A cerca de 500 metros da chegada, vi meu pai. Ele estava parado ao lado do percurso, segurando nossa bandeira nacional para mim. Peguei a bandeira, e uma onda de orgulho e emoção tomou conta de mim. A reta final foi emocionante e inesquecível para mim. Minha esposa, minha filha e minha mãe me receberam na linha de chegada, junto com meu irmão, que tinha terminado 12 minutos antes.
Depois da Prova
Logo depois de cruzar a linha, senti uma mistura avassaladora de alívio e exaustão. Minha meta de tempo não foi alcançada, mas terminei forte, de cabeça erguida. Meu irmão me contou depois que esperava que eu o ultrapassasse em algum momento, mas isso nunca aconteceu.
Apesar da dor e das dificuldades, eu não vomitei, não me machuquei, não precisei parar em um banheiro químico de surpresa, nem tive assaduras ou unhas roxas. Olhando para trás, percebi que tinha acertado em várias coisas:
- Fiz treinos de 30 km antes da prova
- Carreguei carboidratos sem experimentar alimentos novos
- Usei um tênis e uma regata já testados
- Usei uma fita antiassadura nos mamilos
- Descansei bem na semana anterior à prova
- Testei minha estratégia de abastecimento durante o treino
- Usei equipamentos já conhecidos no dia da prova
Se eu pudesse voltar no tempo e fazer tudo de novo, só mudaria algumas poucas coisas:
- Começar em um pace mais lento e manter esse ritmo, por mais tentador que seja acelerar
- Tomar eletrólitos antes, durante e depois da prova. Na época, eu não sabia o quanto o sódio era essencial para prevenir cãibras
- Rodar mais 3 a 4 semanas de 50 km cada uma, para construir uma base mais sólida
Parado ali, logo depois de cruzar a linha, encharcado até os ossos, com minha família torcendo ao meu redor, eu sabia que aquela prova tinha me dado algo muito mais valioso do que uma meta de tempo. Ela me deu uma lição de resiliência, de encontrar força para continuar seguindo em frente quando cada parte do corpo pede para parar.
Ao me afastar da linha de chegada, eu não tinha nenhuma vontade de me inscrever em outra maratona. Ainda assim, também não descartei a possibilidade. Minha meta de tempo na maratona continuava sem ser alcançada, e a ideia de conquistá-la ainda ecoava — um desafio que logo me chamaria de volta.